Month: junho 2019

O coração a serviço do espaço

Cena do filme Dor e Gloria de Pedro Almodóvar.

A antiga e instintiva arte de arrumar uma casa, que já foi reverenciada, tem se perdido em detrimento da vida moderna e a dissociação da figura feminina dessa função. Embora todos saibamos onde colocar cada objeto (ou não) muitas pessoas tem dificuldade do que fazer para tornar sua casa aconchegante e acolhedora, para que ela traduza sua personalidade, atenda os anseios de sua alma e esteja organizada.

Mudar essa situação depende de você, e isso pode ser feito com facilidade. Não perdemos por completo a habilidade de arrumar a casa, só está enferrujada e pausada diante de tantas ofertas que as ruas nos oferecem, parece ser mais atrativo passar tempo fora dela e trata – lá como um vestíbulo ou deposito.

Mas se de verdade houver um desejo de reverter esse quadro precisamos entrar em contato com nossa essência, e precisamos de tempo, esforço, dialogar com memorias afetivas, imaginação e vontade, e assim traremos de volta a magia, calor e alegria para dentro de suas paredes.

Serão necessários cuidados físicos, emocionais e energéticos, teremos de ser capazes de sentir e alterar sua atmosfera, exercitando nossa intuição para atender as suas necessidades. Redescobrindo a essência da sua casa você se aproxima da natureza com todo os seus elementos e a força vital que eles possuem, explore seus sentidos através de sons, aromas e texturas.

Esse reencontro será um caminho de autoconhecimento e de transformação para ambos, o resultado será o tão almejado santuário.

No domingo passado assisti ao novo filme de Pedro Almodóvar, Dor e Gloria. Não vou dar spoiler do filme, mas não poderia deixar de comentar o que senti. Uma das coisas que me chamou bastante a atenção na trama, foi a sequência de cenas onde a atriz Penélope Cruz, que representa a mãe de Salvador (Pedro Almodóvar), decidi transformar um “buraco”, jeito como ela se refere a nova moradia em um lar.

Num determinado momento eles vão morar nesse vilarejo onde as casas se parecem com cavernas. No primeiro impacto de Jacinta, personagem interpretado por Penélope, o lugar parece inapropriado para se morar, mas mesmo decepcionada, ela se mostra forte e altiva em transforma – lo. O exercício feito por ela nesse movimento foi de colocar o seu coração a serviço daquele espaço. Eu embarquei em cada pequeno movimento dessa transformação, senti toda a intensidade da luz do sol que entra pela claraboia, as latas transformadas em vasos e dispostos tanto no piso quanto pendurados, a pintura caiada das paredes e os azulejos coloridos sobre a pia, criaram essa atmosfera envolvente, aconchegante e acolhedora que toda casa gostaria de ter.

Vale conferir tanta beleza, tanta cor, tanta emoção de um jeito que só Almodóvar sabe traduzir aos olhos de seus admiradores.

Cena do filme Dor e Gloria de Pedro Amodóvar.

Os sapatos e seus significados

Enquanto primatas, descemos das arvores e tocamos os chão. Nossos pés encontraram espinhos, pedras afiadas, solos quentes e frios. a improvisação dos primeiros protetores para os pés foram feitos de fibras de arvores e peles de animais.

à medida que a cultura humana se desenvolveu, os sapatos passaram a ser associados à autoridade, posse, sexualidade e estatuto. Para reclamar propriedade , uma pessoa pode colocar os sapatos sobre ela ou percorrer seu perímetro. O grau e estatuto social eram transmitidos pelas características especificas dos sapatos: o mocassim de camurça elaboradamente ornado com contas do chefe americano nativo, por exemplo, ou a sandália vermelha brilhante de um senador romano. No extremo oposto do espectro está o descalço, muito associado à pobreza. Em muitas tradições sagradas, o ato de descalçar significa deixar de lado a mundanidade, ou a inversão de um ponto de vista.

Andar de sapatos é tomar posse da terra, observa Jean Servier, em Les Portes de L’Année ( Robert Laffont, Paris, 1962, p.123) Para apoiar essa interpretação, o sociólogo cita vários exemplos, desde a Grécia até o norte da África. Ele lembra numa passagem da Bíblia: Ora antigamente era costume em Israel, em caso de resgate ou de permuta, para validar o negocio, um tirar a sandália e entrega – la ao outro (Ruth, 4, 7-8). Os exegetas da Bíblia de Jerusalém observam, efetivamente, a esse respeito: Aqui, o gesto sanciona…um contrato de troca. Por o pé ou jogar as sandálias num campo significa tomar posse dele. Assim o calçado torna – se simbolo do direito de propriedade. Ao tirar – lhe ou devolver – lhe o calçado, o proprietário transmite ao comprador esse direito.

Na China, a palavra sapato se pronuncia igual à que significa Compreensão reciproca. Por isso um par de sapatos simboliza a harmonia do casal e estes eram oferecidos como presente de casamento.

Pensando pelo lado da organização pessoal, fico com o significado de propriedade. Quando entro na casa de clientes e vejo a enorme quantidade de sapatos e a dificuldade que a pessoa tem de gerir a própria sapateira, me parece bem antagônico. Penso que vale uma reflexão mais profunda entre o ter e o apropriar, o que seria um ato corriqueiro se torna mais uma demanda pois decidir – se entre e um e outro torna – se uma tarefa hercúlea.

Organizar – se começa em fazer escolhas, e não desfazer – se enlouquecidamente do que já se tem. O consumo encabeça essa lista, entre comprar algo novo, vale checar se o que já tem não atende a sua necessidade. Se paramos para pensar o que fica no campo visual de quem esta a sua frente é seu rosto e seu troco, não seus pés, garanto que se você usar o mesmo sapato por um período de 03 meses com produções diferentes, entre calças, blusas e vestidos, as pessoas nem vão notar o que esta calçando.

O Livro dos Símbolos – reflexões sobre imagens arquetípicas _ TASCHEN

Dicionario de Símbolos – Jean Chevalier e Alain Gheerbrant

Casa / Lar

Casa, cerâmica, ca. 25 – 220 d.C.. China.

Uma casa é a personificação de lar. O lar é onde se encontra o coração, um estado emocional de pertencer, de segurança, e de satisfação. Psiquicamente, a nossa primeira casa é o útero materno no qual nos desenvolvemos, e tal como os animais que fazem instintivamente as suas casas em ninhos, em tocas na terra, nos buracos das árvores, cavernas e fendas, muitas das primeiras casas por nós fabricadas eram estruturas uterinas íntimas e acolhedoras. Por todo o mundo, os desenhos das cavernas atestam a nossa presença primordial. Cabanas de lama em algumas regiões da África ainda são fabricadas segundo a forma do tronco feminino, com aberturas parecidas com vaginas como portas.

O lar é o sacramento e o ritual da relação, conjunção, solidão e nudez, representada na cozinha, quarto e banheiro. Não ter uma casa (edificação), não significa não ter lar. Nos bosques, desertos, na lua, num navio, num amigo querido, numa cidade especifica, um conjunto de circunstancias pode ser o lar (projetado).

Estes correspondem e contribuem para algo no interior, à experiencia de um centro vital de permanência e liberdade, de descanso depois do esforço, de se ser totalmente próprio.

A falta da casa esta ligada ao abandono, despojamento, instabilidade, desenraizamento, ânsia, vazio e desejo crônico. Para alguns, o lar parece inalcançável no aqui e no agora. Nos sonhos a mente é representada como uma casa.

A solidez estrutural da personalidade, a relação entre os seus aspectos pessoais e trans pessoais é igualmente sugerida na representação: a casa é solida ou não? há simetria entre vertical e horizontal? ou há desproporção? o espaço é restrito ou amplo? as manifestações externas do lar estão sujeitas a inúmeras variáveis. O lar foi idealizado. Nas mitologias do mundo, o nosso primeiro lar é um paraíso de unidade, uma época anterior à consciência e às suas descriminações em conflito. O lar pode ser uma prisão ou um abrigo de evitação, Estamos fixos ao lar, ou a um lar corporal. Na casa e no lar encontra – se a harmonia domestica. O lar pode representar a criação do Self (lar sadio), mas também a sua violação (acumulo, bagunça e sujeira). Nos fugimos do lar, procuramos o lar. O lar é o objetivo de odisseias épicas, de buscas espirituais e de transformações psíquica.

O livro dos Símbolos – reflexões sobre imagens arquetípicas – TASCHEN