Como Conciliar Emoções e Organização Pessoal

Em 2013 li o livro de Marie Kondo, “A Mágica da Arrumação – A Arte Japonesa de Colocar Ordem na Sua Casa e na Sua Vida”, na época já trabalhava como organizadora pessoal há 2 anos, porém não havia passado por tantas experiências profissionais que me dessem uma visão mais profunda da técnica de organização que Kondo apresentava. Neste período, o mercado brasileiro de organização era embrionário e não trazia a propriedade de que organizar uma casa iria muito além de colocar cada coisa em seu lugar, fato que fui descobrindo sozinha, pontualmente, quando atendi pela primeira vez uma acumuladora. Em meados de 2019, na estreia da série “Ordem na Casa”, já atuava no mercado há 8 anos intensamente. Além de organizar casas e espaços corporativos, ministrava workshops na Etna, posteriormente na Zodio e cursei pós-graduação em Arte Terapia, pelo Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, pois senti a necessidade de adquirir recursos para lidar com as emoções que emergem durante o processo de organização; e é, justamente, sobre esta lacuna que há entre o ato de organizar e o sentimento de quem está tendo suas roupas e objetos revirados por uma profissional, que venho tratar aqui em Como Conciliar Emoções E Organização Pessoal.

Para quem não se recorda ou não assistiu,  Ordem na Casa está dividida em 08 episódios, cada um deles tratando de um tema diferente: crise no casamento, luto, sentido na vida, passado e futuro, entre outros, mas todos carregados de conteúdos emocionais e de assuntos que falam principalmente dos enredos das relações cotidianas, que precisam de um olhar muito criterioso e que a organização simplesmente não dá conta.

O método de Marie Kondo organiza a casa e a rotina mas, e organizar aquilo que não é visto, como os sentimentos?

Em um dos workshops que ministrei na Etna, uma participante se levantou e mostrou muita raiva quando contou que passou por um processo de organização e que durante o mesmo, foi convencida a se livrar de determinadas roupas que lhe eram estimadas. Esta experiência me levou a refletir e a buscar conhecimento na área de psicologia, então me formei em arte terapia no final de 2019.

Como Conciliar Emoções e Organização Pessoal

Minha Formação em Arte Terapia

Foram 02 anos de investimentos, não só financeiro, mas também de tempo, estudo e dedicação para poder lidar com mais seriedade e respeito com as bagagens emocionais que se entrelaçam nas roupas, objetos e histórias de vida dos clientes.

Existe uma linha muito tênue para o desastre se a abordagem não for feita com muito cuidado e respeito: é necessário o entendimento de que determinadas situações precisam ser vivenciadas no campo emocional, para que depois possam passar pelo campo físico da organização. O processo tem que ser paralelo, na minha opinião não é possível fazer de outro jeito.

Há muita glamourização da profissão e pouca investigação dos profissionais na hora da contratação. Hoje, me parece que ter atuado na casa de uma celebridade virou referência de um bom currículo, ou receber conselhos de um amigo psicólogo com algumas técnicas de intervenção em situações de crise vem sendo um recurso cada vez mais usado (e incentivado) pelo próprio mercado. Quando no principal evento de organização, uma psicóloga sobe ao palco e vende cursinhos fast de psicologia para as profissionais da área, torna-se alarmante o fato de que as psicólogas e a organização do evento, bradam aos quatro ventos que as POs podem e devem se considerar profissionais da saúde, quando na realidade não é bem assim. Problemas nesse mercado é o que não falta, mas isso é papo para outro post.

Desde o início de 2020 venho unindo a organização à arte terapia, meu processo de anamnese do cliente é muito mais investigativo do que foi no passado. É preciso olhar para cada cliente como um pequeno universo, cheio de dúvidas e contradições e estar atento que quando ele abre suas histórias e as portas de sua casa para você, ele está completamente vulnerável; qualquer coisa que uma organizadora pessoal diga ou faça, pode acabar tirando o ônus desse cliente de lidar com seus próprios conflitos. Como já dizia minha avó: coração é terreno que se pisa descalça, adentrar uma casa e sua intimidades é desvendar um coração ou vários corações, dependendo do número de moradores dessa unidade unifamiliar.

Concluindo

Venho lembrar que meu interesse pela psicologia vem desde muito cedo, quando ainda morava com meus pais; muito antes de me formar em arte terapia sempre fui estudiosa e curiosa pelo assunto e as vivências que experimentei trabalhando só confirmaram que estou no caminho certo. Isso não quer dizer que todas as POs tenham que ter alguma formação nessa área, mas cada cliente deve procurar a profissional que vai atender melhor a sua necessidade e, que se for preciso, será capaz de lhe trazer acolhimento durante o processo.

Por fim, voltando ao método de Marie Kondo, a rigidez em fazer o processo numa determinada ordem talvez não seja a melhor maneira de lidar com algo tão pessoal, talvez deva ser apresentado e modificado de pessoa para pessoa. Cada casa apresenta uma dinâmica de funcionamento, cada cliente é único, portanto a solução que será apresentada, será diferente para cada situação. É isso que me encanta ao aplicar a arte terapia como auxiliar nestes processos. Com ela podemos utilizar materiais variados, como lápis de cor, aquarela, argila e recursos como sensibilizações, músicas, vivências etc,  para tirar o cliente de sua concha.  Eu, como organizadora e arte terapeuta, sou apenas a ponte dessa travessia.