Enquanto primatas, descemos das arvores e tocamos os chão. Nossos pés encontraram espinhos, pedras afiadas, solos quentes e frios. a improvisação dos primeiros protetores para os pés foram feitos de fibras de arvores e peles de animais.

à medida que a cultura humana se desenvolveu, os sapatos passaram a ser associados à autoridade, posse, sexualidade e estatuto. Para reclamar propriedade , uma pessoa pode colocar os sapatos sobre ela ou percorrer seu perímetro. O grau e estatuto social eram transmitidos pelas características especificas dos sapatos: o mocassim de camurça elaboradamente ornado com contas do chefe americano nativo, por exemplo, ou a sandália vermelha brilhante de um senador romano. No extremo oposto do espectro está o descalço, muito associado à pobreza. Em muitas tradições sagradas, o ato de descalçar significa deixar de lado a mundanidade, ou a inversão de um ponto de vista.

Andar de sapatos é tomar posse da terra, observa Jean Servier, em Les Portes de L’Année ( Robert Laffont, Paris, 1962, p.123) Para apoiar essa interpretação, o sociólogo cita vários exemplos, desde a Grécia até o norte da África. Ele lembra numa passagem da Bíblia: Ora antigamente era costume em Israel, em caso de resgate ou de permuta, para validar o negocio, um tirar a sandália e entrega – la ao outro (Ruth, 4, 7-8). Os exegetas da Bíblia de Jerusalém observam, efetivamente, a esse respeito: Aqui, o gesto sanciona…um contrato de troca. Por o pé ou jogar as sandálias num campo significa tomar posse dele. Assim o calçado torna – se simbolo do direito de propriedade. Ao tirar – lhe ou devolver – lhe o calçado, o proprietário transmite ao comprador esse direito.

Na China, a palavra sapato se pronuncia igual à que significa Compreensão reciproca. Por isso um par de sapatos simboliza a harmonia do casal e estes eram oferecidos como presente de casamento.

Pensando pelo lado da organização pessoal, fico com o significado de propriedade. Quando entro na casa de clientes e vejo a enorme quantidade de sapatos e a dificuldade que a pessoa tem de gerir a própria sapateira, me parece bem antagônico. Penso que vale uma reflexão mais profunda entre o ter e o apropriar, o que seria um ato corriqueiro se torna mais uma demanda pois decidir – se entre e um e outro torna – se uma tarefa hercúlea.

Organizar – se começa em fazer escolhas, e não desfazer – se enlouquecidamente do que já se tem. O consumo encabeça essa lista, entre comprar algo novo, vale checar se o que já tem não atende a sua necessidade. Se paramos para pensar o que fica no campo visual de quem esta a sua frente é seu rosto e seu troco, não seus pés, garanto que se você usar o mesmo sapato por um período de 03 meses com produções diferentes, entre calças, blusas e vestidos, as pessoas nem vão notar o que esta calçando.

O Livro dos Símbolos – reflexões sobre imagens arquetípicas _ TASCHEN

Dicionario de Símbolos – Jean Chevalier e Alain Gheerbrant