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Metodologia da Organização Pessoal Com Arteterapia

Metodologia da Organização Pessoal Com Arteterapia

A cada abertura de um novo episódio, Marie Kondo se apresenta e em seguida solta a frase: “minha missão é levar alegria ao mundo por meio da ordem”. Além de organizadora, ela também é escritora e se dedica a inspirar o mundo a escolher a alegria com o método de organização que criou. Segue, ainda, contando que sua metodologia é única, pois organiza por categoria e não por área ou cômodo. Kondo explica, “no meu método há cinco categorias”, quais sejam:

1. Roupas;
2. Livros;
3. Papeis;
4. Komono – que engloba cozinha, banheiros, garagem e itens variados;
5. Objetos com valor sentimental.

Mas como funciona a metodologia da organização pessoal com arteterapia?

No método de organização que aprendi em 2011, quando fiz minha primeira formação para trabalhar como PO, o processo de organização foi ensinado da seguinte forma:

1. Descarte – desfazer-se do que não usa;
2. Categorização- separar as peças por grupos;
3. Planejamento – quantificar roupas e objetos para verificar se haverá necessidade do uso de produtos organizadores;
4. Limpeza – passar pano, tirar pó e lavar;
5. Implantação – devolver as roupas e objetos aos armários já limpas, penduradas e dobradas/inseridas nos produtos organizadores para, por fim, montar uma lógica de uso;
6. Identificação – etiquetar para ajudar na manutenção da organização;
7. Manutenção – serviço oferecido à parte para manter a organização;
8. Revisão – caso o cliente não se adapte a algo proposto no processo.

Além do exposto, aprendi ainda: a montar enxovais, fazer lista de presentes de casamento, consultoria de estilo, fazer moldes para dobrar roupas, métodos inusitados de tirar manchas de toda sorte de tecidos, tirar mofo e até matar traças,  tudo no mesmo curso (que durou um fim de semana).

Como Funciona Meu Próprio Método de Organização E Suas Etapas

Com tantas coisas para oferecer, precisei focar e sintetizar o quê havia aprendido e foi assim que criei meu próprio método de organização, a partir de observações durante visitas técnicas, dos questionários de anamnese e das reações positivas que vinham dos serviços concluídos. Desta forma, coletei muitas informações e defini, afinal, o quê oferecer e o quê negar aos clientes, sendo meu serviço oferecido nas seguintes etapas:

O Descarte é a etapa “menina dos olhos de todo profissional de organização”. É imprescindível aqui a participação do cliente,  não sendo possível em uma única visita técnica conhecer a vida de quem está me contratando. Não conheço todas as roupas, não sei quais estão sendo usadas e quais estão só ocupando espaço, não sei o que serve ou não serve e não sei o que tem valor afetivo. Preciso ser minimamente norteada e é, justamente aqui, que a Arteterapia se encaixa pois é nesta fase que o cliente entra em contato com suas emoções e nela que os desconfortos e conflitos podem emergir.

Descarte/categorização/planejamento/implantação, funcionam para mim como uma única etapa, já que trabalho por ambiente e geralmente é esperado de mim que comece e termine o serviço no mesmo dia. Feito isso, faz parte do processo dobrar e pendurar todas as peças que vão voltar para os armários de origem. Costumo não usar muitos produtos novos na hora de organizar, mas para que a organização passe aquela sensação de leveza e paz é fundamental padronizar cabides e usar colmeias nas gavetas, todo o resto fica a critério do cliente.

Note que na série “Ordem Na Casa”, Marie participa do descarte somente no momento que todas as peças da categoria “Roupas” são tiradas dos armários e amontoadas em único cômodo; após isso, ela sai de cena e deixa o cliente fazer o descarte, dobrar e pendurar todas as peças. Percebi que aqui no Brasil se eu deixar esta parte do processo para o cliente fazer, eu nunca mais consigo trabalho. Culturalmente, as pessoas se julgam especiais demais para lidar com coisas tão triviais, mas caso lidassem com isso sozinhas, com toda certeza passariam a ter mais consciência sobre consumo.

Metodologia da Organização Pessoal Com Arteterapia

Com relação à limpeza, esta foi uma das etapas que eliminei do meu processo, logo de cara. Sempre deixo claro em contrato que isso é uma responsabilidade do próprio cliente. Posso fornecer alguém para limpar, o que gera um custo adicional, ou o cliente disponibiliza alguém de sua confiança para realizá-la. A limpeza demanda tempo e a organização também, sendo coisas distintas e desempenhadas por profissionais especialistas em cada área. Existem pessoas, independente de classe social, que não tem a menor noção de limpeza e higienização de ambientes, mas isso é outra história, para outro post e treinamento à parte.

Identificação através de etiquetas é uma opção para o cliente, alguns gostam pois ajuda suas colaboradoras a voltar os itens para o lugar com facilidade, já para as crianças as etiquetas dão autonomia, visto que são capazes de pegar o que querem e guardar no mesmo lugar com o auxílio destes pequenos avisos.

Manutenção é a parte que mais me incomoda nesse método e também é uma etapa não muito valorizada pelo cliente, uma vez que funciona apenas com pessoas que te contratam para organizar e fecham um acordo separado, com combinados feitos entre as partes para que seja mantido mensalmente ou trimestralmente o que foi implementado; caso contrário se passar mais de 6 meses da última organização, deve-se contar como um novo processo.

A Revisão prefiro chamar de adaptação:  pode acontecer de algo não funcionar bem na rotina do cliente e eu precisar voltar para adaptar (ou melhorar) o que não funcionou, mas é algo pontual e específico. Geralmente há prazo de uma semana para ser detectado pelo cliente e corrigido por mim.

Conclusão

Meu olhar para organização em etapas, como a que me foi apresentada, é de que não parece fazer muito sentido já que a organização por ambiente pede que todos ocorram simultaneamente para se obter o resultado esperado. O que me difere das profissionais do mercado é que uso a Arteterapia como parte desse método, fazendo dele um processo que deve ser executado num período de 04 a 06 encontros semanais, que duram aproximadamente uma hora e meia. Após a parte arte terapêutica, partimos para ação: em alguns encontros faremos só sessões de arteterapia, em outros apenas organização (sendo que ambos podem acontecer ao mesmo tempo – tudo dependerá do conteúdo emocional que surgirá durante o desempenho).

No atendimento mais recente que apliquei a arteterapia, percebi que ela foi fundamental para o cliente. Minhas percepções foram relevantes para que a mesma seguisse no processo sozinha após o término de nossas sessões. Ainda acompanho essas transformações em sua vida  por meio de atualizações periódicas, mensagens enviadas, fotos e também por seu Instagram profissional, que foi onde as investidas do processo mais surtiram efeito e se apresentaram publicamente.

A arteterapia impactou sua relação com seu irmão, que já estava ocupando o apartamento antes dela chegar; ele se negava a abrir mão de espaço por achar que ela estava invadindo seu território. O que aconteceu foi: ele dividiu a sala em duas partes, um lado dele e outro dela, ela não podia fazer qualquer alteração de layout, portanto não se reconhecia naquela casa. Todos seus objetos e livros estavam no chão. Dentro do quarto ela ainda trabalhava, dormia e abrigava gatos, pois a parte da sala que tinha a varanda era do irmão, que não permitia que ela e os animais circulassem por ali. Foram 04 atendimentos com vivências, conversas e mão na massa para conseguirmos construir bases seguras para que ela se desfizesse de muitas roupas e objetos. No corredor dos quartos pendurou 03 quadros que ganhou de seu avô, os quais abrigavam um enorme conteúdo afetivo, tendo sido posicionados onde ela os via todas as vezes que chegava em casa.

Por fim, ela conseguiu conversar com o irmão e agora sei que alterou o layout da sala e os dois estão convivendo pacificamente, sem delimitação de território. No quarto ela mudou a posição da escrivaninha, virando-a para a parede, fazendo com que assim tivesse mais foco para trabalhar com suas fotografias. Tudo isso fez com que tivesse salto quântico na sua produtividade e criatividade e o que mais me deixou feliz neste processo é que não terminou quando acabaram nossos encontros, ele simplesmente começou.

Metodologia da Organização Pessoal Com Arteterapia

Minha Missão

Compartilho isso, pois é importante ressaltar que minha missão é levar às pessoas um maior conhecimento de seus potenciais criativos e uma vida saudável em todos os âmbitos: pessoal, profissional e financeiro. São muitos os ganhos a partir desse exercício, como autoconfiança, liberdade, felicidade, harmonia, leveza, autocontrole e autonomia. A alegria é um sentimento efêmero, são momentos fugazes. Eu creio nos ciclos, na impermanência das coisas, na transformação, ritmo, cadência, constância e sustentação e é isso que viso transmitir com meu trabalho e aprofundamento em cada cliente, em toda sua história de vida traduzida pela sua relação com os ambientes e com suas emoções.

O coração a serviço do espaço

Cena do filme Dor e Gloria de Pedro Almodóvar.

A antiga e instintiva arte de arrumar uma casa, que já foi reverenciada, tem se perdido em detrimento da vida moderna e a dissociação da figura feminina dessa função. Embora todos saibamos onde colocar cada objeto (ou não) muitas pessoas tem dificuldade do que fazer para tornar sua casa aconchegante e acolhedora, para que ela traduza sua personalidade, atenda os anseios de sua alma e esteja organizada.

Mudar essa situação depende de você, e isso pode ser feito com facilidade. Não perdemos por completo a habilidade de arrumar a casa, só está enferrujada e pausada diante de tantas ofertas que as ruas nos oferecem, parece ser mais atrativo passar tempo fora dela e trata – lá como um vestíbulo ou deposito.

Mas se de verdade houver um desejo de reverter esse quadro precisamos entrar em contato com nossa essência, e precisamos de tempo, esforço, dialogar com memorias afetivas, imaginação e vontade, e assim traremos de volta a magia, calor e alegria para dentro de suas paredes.

Serão necessários cuidados físicos, emocionais e energéticos, teremos de ser capazes de sentir e alterar sua atmosfera, exercitando nossa intuição para atender as suas necessidades. Redescobrindo a essência da sua casa você se aproxima da natureza com todo os seus elementos e a força vital que eles possuem, explore seus sentidos através de sons, aromas e texturas.

Esse reencontro será um caminho de autoconhecimento e de transformação para ambos, o resultado será o tão almejado santuário.

No domingo passado assisti ao novo filme de Pedro Almodóvar, Dor e Gloria. Não vou dar spoiler do filme, mas não poderia deixar de comentar o que senti. Uma das coisas que me chamou bastante a atenção na trama, foi a sequência de cenas onde a atriz Penélope Cruz, que representa a mãe de Salvador (Pedro Almodóvar), decidi transformar um “buraco”, jeito como ela se refere a nova moradia em um lar.

Num determinado momento eles vão morar nesse vilarejo onde as casas se parecem com cavernas. No primeiro impacto de Jacinta, personagem interpretado por Penélope, o lugar parece inapropriado para se morar, mas mesmo decepcionada, ela se mostra forte e altiva em transforma – lo. O exercício feito por ela nesse movimento foi de colocar o seu coração a serviço daquele espaço. Eu embarquei em cada pequeno movimento dessa transformação, senti toda a intensidade da luz do sol que entra pela claraboia, as latas transformadas em vasos e dispostos tanto no piso quanto pendurados, a pintura caiada das paredes e os azulejos coloridos sobre a pia, criaram essa atmosfera envolvente, aconchegante e acolhedora que toda casa gostaria de ter.

Vale conferir tanta beleza, tanta cor, tanta emoção de um jeito que só Almodóvar sabe traduzir aos olhos de seus admiradores.

Cena do filme Dor e Gloria de Pedro Amodóvar.

A seletividade como diálogo

Quando comecei a trabalhar com organização eu não sabia ao certo onde isso iria me levar.

Atendendo pessoas diferentes, cada cliente uma demanda, comecei a perceber a necessidade de ter um preparo a mais, pois a organização é uma cirurgia invasiva, depois de feita a pessoa nunca mais se sentira igual e o seu universo particular começara a se configurar de outra forma.

E porque estou dizendo isso, o cliente me liga, me contrata e então eu entro na sua casa e começo a dissecar seu guarda roupa, sua vida e suas memorias.

Enquanto esse processo vai acontecendo, paralelamente o cliente começa a entrar num túnel do tempo, roupas da adolescência, vestido de noiva, roupa que cabia antes de ter filho, chale que foi da bisa, joia que foi da avó, é inevitável entrar em contato com alguma fase da vida e muitas emoções.

Iniciei minha pós em arte terapia em 2018, estou a pouco mais de 6 meses da formatura e nesse curso pude encontrar respostas para muitos dos conflitos que eu sentia dominar meus clientes quando o assunto é desapegar.

A arte pode nos explicar várias coisas e uma dessas coisas são as emoções, não precisamos entender uma obra de arte, basta olhar pra ela e sentir e a partir desse sentimento é possível elaborar racionalmente uma explicação para aquele momento de contemplação.

São muitas as trocas que acontecem nesse grupo de futuros arte terapeutas, são muitos compartilhamentos de livros e exposições, trocamos experiências, vivencias e nesse solo fértil, cheguei a exposição “coleção Imaginaria” de Marcelo Silveira.

Visitei a exposição e a identificação com a organização e arte terapia foi instantânea, vi o dialogo das minhas profissões construídos bem ali na minha frente. E lembrei que até bem pouco tempo atrás isso era um dilema pra mim, pois eu não sabia ainda muito bem como fazer com que essas atividades se conversassem e pudessem se transformar num atendimento para pessoas com desorganização cronica.

Essa exposição discute a diferença entre colecionar e acumular, e do meu ponto de vista é uma linha muito tênue entre uma coisa e outra, e por isso chega a nos confundir.

A organização entra nessa discussão quando é percebido que mais do que aglomerar os objetos, colecionar significa estabelecer um método de seleção e de categorização, esses são apenas dois, dos sete passos que seguimos quando nos propomos a organizar alguma coisa.

Quando todos esses objetos são categorizados, separados e organizados, o colecionar define uma ordem no mundo que espelha a singularidade de sua forma de pensar. Que pode ser observada na obra Só resta o cheiro, onde 4.082 vidros de perfume são organizados por tamanho, cor, por famílias de cheiros ou por qualquer outro critério.

O que importa na coleção de vidros de perfume é o que a diferencia de um amontoado sem sentido.

Ao organizar uma coleção, aprende-se algo sobre o mundo e sobre si mesmo, ao fazer uma produção artística num ateliê de arte terapia também e nesse momento é feita uma grande conexão com a nossa capacidade de se conhecer.

Quando colecionamos mostramos algo ao mundo, nos mostramos pra ele, algo novo, nada familiar nos propondo novos conhecimentos e pensamentos.

É por isso que Marcelo Silveira coleciona madeiras, vidros, papeis e organiza-os em estantes, cristaleiras ou armazéns, onde há o lugar certo para cada item. Seria a coleção uma representação da nossa mente? Ou a nossa capacidade de organizar o caos existencial com recursos mentais?

A exposição é um convite a olhar sobre a beleza da seletividade e do conhecimento de memorias, objetos, valores, amigos, todos escolhidos com cuidados de quem arruma vidros de perfume numa estante.

Se perdermos essa noção de critérios de escolha, não estaríamos também perdendo o pensamento crítico? Nessa atual sociedade de acúmulos, conseguiríamos identificar a singularidade? Se não exercitarmos a liberdade de escolha não estaremos perdendo a capacidade de escolher valores para a construção do mundo que queremos?

É uma linda coreografia feita a partir da organização e da arte, dois caminhos, que se cruzam e se entrelaçam sendo o ponto de partida uma pessoa. Trazemos muita bagagem com a gente, todos temos historias e memorias de toda a sorte. Pensando assim a quantidade de objetos que retratam nossa caminho não precisam ter o volume da nossa experiência.

Exposição Coleção Imaginaria – Marcelo Silveira

Curadoria de Paula Braga

Sesc Santo Amaro

27/04 a 28/06/2019

Ter a sex, 10h 30 – 21h

Sab/ dom e feriado. 11h – 18h